DECLARAÇÃO POLÍTICA

Volvidas mais de quatro décadas perdidas em jogos de fé e descrença, de esperança e desespero, de confiança e intrujice, nós chegámos aqui com o sentimento profundo de, na prática quotidiana, termos sido sistematicamente vencidos pela nossa boa fé e pela má fé dos outros, pela nossa capacidade de sacrifício e pelo arrivismo dos adversários, pelo nosso desinteresse e pelo insaciável amor aos empregos de quem nos combate.

Como alguns dos nossos amigos, poderíamos ter ficado descansadamente em casa a defender os princípios com a mulher e as crianças — enquanto à nossa volta se desmorona Portugal, gangrenado pelo cancro da partidocracia… Como outros, ninguém nos censuraria se nos limitássemos a ler uns livros, a escrever umas crónicas e a suspirar “que o país está perdido” — tanto que a Nação se desfaz abocanhada pelas várias internacionais que ocupam o Estado… Como mais aqueles, seríamos felicitados e louvaminhados se nos atrelássemos a uma qualquer moda momentaneamente triunfal, sem se cumprir um único dos nossos princípios fundacionais.

Preferimos o combate — a parte desconfortável — e, depois de termos conseguido as condições materiais mínimas para o prosseguir, avançamos com a “Alternativa Portugal” para defender o que resta desta Nação gloriosa. Não podemos aceitar que nos recusem sem nos conhecerem, que nos recusem sem sermos jurídica e programaticamente coisa alguma; que nos recusem somente porque queremos seguir o exemplo daqueles que, antes de nós, iniciaram a guerra, no pouco terreno que dispomos e com os raros homens que, depois da catástrofe abrilina, nunca voltaram a cara, nem aos adversários nem aos amigos, lutando contra uns e ajudando os outros, na medida das forças, das posses — e da Coragem.

Ao procurarmos fundar a “Alternativa Portugal” quer dizer, ao procurarmos organizar um movimento nosso, só nosso e intransigentemente português, mas com algumas possibilidades materiais e humanas — logo algumas vozes se levantaram, acusando-nos dos mais vis conluios. Nenhuma amizade ou gratidão pessoal pode ou deve impedir de defendermos a Pátria.

Não duvidamos do patriotismo dos nossos amigos — nem mesmo dos que não estão aqui pelo jogo lúdico de serem sempre existencialmente vencidos. Não podemos aceitar, todavia, que duvidem deste nosso amor teimoso a Portugal, desta nossa vontade de o salvar, desta nossa insaciável sede de vitória e de justiça.

Estamos fartos de ser enganados — que este Estado não é o Estado Nacional porque lutamos, que este Sistema não é o sistema político que propugnamos, que esta vida política, envilecida e canalha, não é a vida viva que queremos viver como Portugueses e homens, no presente e no futuro, para nós e para os nossos filhos.

Movimento de acção que se pretende interveniente activo na vida do nosso País — queremos ser também movimento de reflexão. Reconhecendo da tradição o que de melhor poderá servir a circunstância e o porvir, vamos tentar aproveitar dos escombros do 25 de Abril o que for aproveitável, duas ou três pedras — se algo há para aproveitar. Haveremos de fazer a nossa própria revolução, revolução integral e integralista, que nos liberte da estatolatria partidocrática que nos aporrinha a intervenção e atrofia a criatividade política, ponderando um por um os pontos fundamentais da acção futura.

Recusamo-nos a aceitar que, por qualquer maioria, se altere o Corpo e o Espírito da Nação, velha de mais de oito séculos. Não discutimos Deus. Não discutimos a Pátria. Não discutimos a Família. Não discutimos a Autoridade. Não discutimos o Trabalho. Consideramo-nos como um elo na cadeia de séculos. Negamo-nos a discutir o Absoluto que nos fez em nome de quem nos fez — e em nome do futuro.

Portugal é o caminho da nossa Salvação. Assim Deus o quis. Discuti-lo é como se discutíssemos a nossa própria essência. Nenhuma maioria é legítima para o pôr em causa. O que estruturalmente nos separa do regime que nasceu com o 25 de Abril — é isso mesmo. Pela força bruta das armas destruiu-se a Pátria multissecular e sacrificaram-se as gerações vindouras — em nome de abstracções ideológicas ao serviço de interesses estrangeiros inutilizou-se a morte dos que morreram por nós.

Não discutimos a Pátria. A Pátria, porém, não é apenas Terra: também é Gente, memória e saudade dos tempos passados, visão estimulante dos tempos futuros. Restauremo-la na sua dimensão. Refaçamo-la, conformada aos dias de hoje. Reconstruamo-la pedra por pedra em edifício novo, no beiral daquela imensa alma que nos levou lá longe e que nos fez tal e qual somos, e tal e qual seremos.

Não discutimos a Família — porque não nos discutimos. Não discutimos a Autoridade que a Família encarna. Não discutimos o Trabalho que nos fez homens. Dogmaticamente, recusamo-nos a discutir o que não tem discussão como artigo da nossa Fé portuguesa — e não pode ser joguete da vontade convulsa de maiorias avulsas, organizadas adrede para atamancar problemas circunstanciais.

Um outro Estado há-de sair das nossas mãos, afecto à realidade sociológica e cultural do povo português. Temos de o fazer de novo — e não apenas construí-lo — dos alicerces ao telhado, chamando o povo e os corpos naturais e intermédios ao mando dos seus destinos.

Vamos procurar erguer um Estado hierarquizado como imagem resplandecente da Ordem natural, livre como deve ser, considerado no entanto, como garante indiscutível das liberdades pessoais, associativas, institucionais e regionais que, no concreto do fenómeno político, como conjunto orgânico da conflitualidade necessária e dinâmica, representam legitimamente o Poder Real. Defendemos as liberdades concretas contra a liberdade abstracta, luxo circunscrito e brincalhão de ociosa classe política. Buscamos em termos realmente modernos administrar as coisas e libertar as pessoas e os seus grupos naturais, a Pátria unidade imperecível, conjunto de realidades que se governam por si.

A ditadura não deixa de o ser pelo facto de ser exercida por muitos. Não nos interessa o pluralismo confinado aos partidos que monopolizam o aparelho de Estado e toda a representatividade política. Queremos ser representados no Parlamento sucessivamente pelas nossas famílias, pelas nossas regiões, pelas nossas profissões — por quantos, natural e institucionalmente nos servem de anteparo à prepotência intromissora do Estado na vida local e institucional da Nação.

Para além de quaisquer projectos de reestruturação do Estado português destruído por quase dois séculos de centralização e concentração burocrática e socializante deve a “Alternativa Portugal” assumir-se como a regeneração da Pátria. Quando concebemos o Movimento pensámo-lo fundamentalmente como congregação nacional. Partido dos sem partido, unidos no essencial. Independentes somos, independentes queremos continuar a ser. Propomo-nos para o combate no único terreno que nos deixaram livre. Batemo-nos pela unidade da Pátria, contra o divisionismo partidocrático. Por Portugal e pelo futuro.

Seremos o que quisermos ser, sem quaisquer influências estranhas. Não podemos manter-nos inactivos diante das sucessivas e falhadas experiências governativas em que temos andado embrulhados desde o 25 de Abril. Recomeçamos tudo de novo, verificando que temos o direito e o dever de intervir, esgotados que estão pela própria degenerescência do Sistema todos os partidos políticos existentes. Erguendo a voz, estruturando uma organização, procurando implantar-nos ao longo de todo o país, entramos numa nova fase da nossa luta — e, como se nada nos tivesse acontecido, fundamo-nos unidos a caminho da vitória, já sem escutarmos as críticas, já sem vermos as invejas — como se fossemos sós. Apoiando-nos, temos todos os que não desertaram nem descansaram jamais — e sacrificaram quase tudo, desde a liberdade à segurança, para chegarmos aqui. É necessário que a História nos conte como os que não se deixaram vencer.