A
IGREJA NÃO TEM DE ABDICAR
15NOV2011
Rezava a notícia:
"O porta-voz da Conferência
Episcopal Portuguesa, padre Manuel Morujão,
anunciou ontem, quarta-feira que a Igreja
católica está disposta a
abdicar de dois feriados religiosos, se
o Estado fizer o mesmo com dois feriados
civis.
As sugestões apontam para os feriados
do Corpo de Deus, à quinta-feira,
e o de Assunção de Nossa
Senhora, a 15 de Agosto, passarem para
o domingo mais próximo.
O governo vai agora negociar os feriados
com a Santa Sé, ao abrigo da Concordata."
Parece, portanto, que as festas mais solenes
da Igreja se podem "passar"
para outro dia
E que se podem negociar.
Ora, em primeiro lugar, a Igreja não
se reduz à conferência episcopal,
A Igreja são todos e cada um dos
Bispos, unidos a Pedro, e o seu Povo particular
e universal.
E, que eu saiba, sobre este assunto não
fomos enquanto Povo de Deus consultados
em nada e para nada.
A festa da Assunção de Nossa
Senhora é uma das mais antigas
da Igreja, radicando a sua solenidade
nos primórdios do Cristianismo.
Nela, a Igreja Católica festeja
o dia de glória de Maria Santíssima.
Lembra, muito justamente, como a Abençoada
e Excelsa Mãe de Jesus Cristo recebeu
a recompensa de suas obras, dos seus sofrimentos,
penitências e virtudes.
Finalmente, a Assunção de
Nossa Senhora é uma verdade declarada
Dogma da Igreja em 1950 pelo Papa Pio
XII.
A festa do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida
popularmente como "Corpo de Deus",
por seu turno, é celebrada há
mais de setecentos anos.
E constituiu (e continua a constituir)
uma resposta às heresias que colocam
em causa a presença real de Cristo
na Eucaristia, afirmando-se também
como o coroamento da devoção
(muito Portuguesa) ao Santíssimo
Sacramento.
Desde há séculos, não
há em Portugal cidade, vila ou
lugar que prescinda da celebração
destas festas nos seus dias próprios
(não foram inventados).
Ora, este Governo da República
só tem meses.
A própria República, por
enquanto, só leva cem anos.
Chegados por graves culpas individuais
e colectivas a um vergonhoso patamar nacional
de descrédito e de dívida,
porque carga de água temos de suportar
mais esta menorização gratuita
(mas altamente simbólica) ao que
de mais sagrado temos no depósito
da nossa fé individual e colectiva?
E o que é mais, com a anuência
parece que pressurosa da Igreja, de resto
tão maltratada e atormentada nas
últimas legislaturas com políticas
ateias fracturantes.
Ora, quando está em causa defender
publicamente o depósito sagrado
da fé religiosa de todo um povo,
a Igreja não deve mostrar-se hesitante,
silenciosa, ou, ainda, o que é
pior, conivente com os que mais ou menos
subtilmente atacam esse mesmo depósito,
maxime, os detentores do aparelho do Estado,
renunciando por más e mal justificadas
razões práticas a dar testemunho
da Verdade.
Antes, deve a Igreja e cada um de nós
crentes defender sem equívocos
ou hesitações o direito
à liberdade religiosa e à
pública expressão da fé
colectiva (como são os feriados,
que possuem a sua razão própria
de acontecer em determinada data).
Afinal, em que é que uma evidente
crise moral e ética (por isso que
financeira), se resolve realmente (bem
pelo contrário) com uma desvalorização
rápida de festas religiosas de
máximo significado e com séculos,
com o que isso acarreta de desrespeito
e desprimor pela verdade e sinceridade
das nossas convicções mais
profundas?
Por tudo isto, penso que a Igreja não
tem de abdicar em nada e de nada.
Nem deve.
Miguel Alvim
Advogado
|