Longe vão já os tempos da vitoriosa insubordinação do 25 de Abril. Pelo caminho ficaram milhões de mortos. Atolados nesta lama de sangue os gloriosos militares vencedores ainda agora blasonam o seu glorioso feito. É a estupidez a tentar justificar a covardia. É tempo de fazer as contas e de avaliar os desgostos.

O orgulho maior do abrilismo é a “descolonização”. Fartos de andarem com a casa às costas, de serem cornos e de se passearem pelos quatro cantos do mundo a defenderem Portugal, os abrilinos resolveram acabar com a guerra para regressarem a penates. Aproveitando-se da fraqueza de Marcelo Caetano, da torpeza de Costa Gomes e da estupidez vaidosa de Spínola organizaram-se celularmente. Numa manhã chuviscosa tomaram conta do poder. Entregaram-no a um epiléptico compensado, coronel de engenharia, chamado Vasco Gonçalves e, num ápice, desfizeram uma obra de cinco séculos. Diz-se que o medo guarda a vinha. Neste caso arrancou-a e destruiu-a. De Julho de 1974 a Novembro de 1975, Portugal viu-se amputado do melhor do seu território histórico do Ultramar, e completamente arruinado na Metrópole. Um misto de loucura furiosa e de ignorância política emporcalhou repulsivamente toda uma gesta heróica, antiga, moderna e contemporânea. É difícil encontrar outro povo que, em tão pouco tempo, tenha sido de tal forma enxovalhado e menorizado.

Tratou-se de libertar povos africanos da férula do colonialismo português. Houve quem recebesse dinheiro por isso. Entregaram-se milhões de pessoas à tirania feroz de uns quantos reizetes negros que, divididos por infindáveis guerras tribais, se comeram uns aos outros. O que se passou e se passa em Angola e Moçambique é uma das grandes tragédias do nosso tempo. Conscientemente planeada! Para que se pudessem explorar lucrativamente e sem entraves políticos as matérias primas das duas antigas províncias portuguesas, tornava-se necessário criar vazios de poder, com governos fantoches, ineptos e corruptos a facilitarem o desenvolvimento do processo. Tornadas à selva as populações morreriam de inanição, vítimas da guerra endémica e larvar. Regressava a África à configuração geopolítica do século XV.

Como se tal não bastasse inverteu-se deliberadamente o sentido histórico da nossa política externa, tradicionalmente virada para o Mar, para a revirar para a Europa. Perdeu-se capacidade de defesa — e perdeu-se soberania. Portugal é hoje apenas uma província da Europa inteiramente dependente dela por intercessão da Espanha. Numa situação de guerra continental ficaremos bloqueados. Perdido o Ultramar, integrados nas comunidades, limitados aos interesses estratégicos de Bruxelas, deixámos de ser um Estado independente, sem agricultura que preste, sem indústria que nos valha, sem nada que nos defenda.

Segundo António José Saraiva o 25 de Abril foi a maior derrota de Portugal depois de Alcácer Quibir. Tal como em 1578, perdemo-nos em África e por causa de África, com a diferença moral e catastrófica de não termos lá ficado mortos, mas termos morrido na fuga, um exército inteiro retirando em debandada coberto de opróbio e borrado de medo.

Quarenta e cinco anos volvidos aguardamos aviltantemente o fim — a não ser que, num momento de revolta e de vergonha consigamos libertarmo-nos das quadrilhas que nos sugam o sangue e a alma. Discutir tudo o que está, desde as fronteiras geográficas às formas políticas do sistema, é o que nos sobra de esperança. A todo o instante é possível recomeçar Portugal, não cedendo um milímetro daquilo que sempre foi português.

Vencer o 25 de Abril continua a ser o nosso primeiro objectivo.